sábado, maio 27, 2006

Águeda, Portugal e Futebol


O Futebol é uma paixão nacional. Todos nós crescemos a jogar e a adorar o Futebol, ao mesmo tempo que nos obrigam a tomar partido pelo SLB, FCP ou SCP. Todas as paixões devem contudo ser consumidas em doses moderadas. Antes de mais, por muito que apreciemos o jogo, a magia técnica dos seus melhores executantes, a beleza das suas acções colectivas, o colorido "marketizado" dos equipamentos, NUNCA deixará de ser um jogo. E um jogo que mais do que interpretar oposições, dissonâncias e rancores clubísticos, contém na sua vivência fundamentos motores, cognitivos e sócio-afectivos fundamentais para o desenvolvimento de cada ser humano. Quantas coisas importantes aprendemos com o Futebol? Do nosso auto-conhecimento pessoal, às nossas capacidades individuais, às relações com os outros, aos valores essenciais à construção da nossa personalidade. Quantas experiências sentidas, vividas e marcantes nas nossas memórias estão situados à volta do jogo de Futebol. Eu comecei a gostar do Futebol no grande e liberto espaço do Adro. Nos anos 60 no Adro contavam-se pelos dedos os automóveis ali estacionados ou que por ali passavam. O Futebol no Adro tinha múltiplas variantes de acordo com o número de participantes, tempo disponível, tipo de objecto de jogo (bola) e nível técnico dos jogadores. Assim tinhamos o "jogo das sarjetas" utilizando uma minúscula bola de borracha e como balizas as sarjetas com água existentes nos passeios. Normalmente eram assim uns jogos de "tudo ao molho e fé em Deus" com muita canelada à mistura. Tinha direito ao jogo ser interrompido sempre que passava um automóvel na estrada. O terreno de jogo ficava em frente à sala do famoso Professor Oleastro. Depois tínhamos o "jogo dos bancos" que com 1x1, 2x2 ou 3x3 no pequeno jardim ao lado da igreja, com balizas paralelas e que colocava à prova a orientação espacial. Por vezes o jogo era interrompido, por perturbar a missa ao lado. No "campo principal" em frente à Escola Primária (actual Junta de Freguesia e Biblioteca Municipal) organizados em "equipas escolhidas a partir dos encostados à parede" disputavam-se as grandes partidas, já com cantos, livres e golos de cabeça. Os golos de cabeça davam sempre muita discussão, sobre a virtual altura da barra. Os postes das balizas eram as árvores ou uma pedra mais arredondada. Nesse tempo o S.Sebastião era a grande catedral do Futebol, onde ao domingo o RDA tentava levar de vencida aquela malta danada de clubes temidos como o Valecambrense, o Lourosa, CORFI, etc.
Em Maio de 2006 o país está rendido ao Futebol, não ao jogo, mas áquilo que hipoteticamente dois grupos de rapazes quase todos nascidos cá neste rectângulo, poderão fazer num Campeonato Europeu de Sub21 anos e num Campeonato Mundial de Futebol. Nesse sentido os chineses já mandaram fazer milhões de bandeiras nacionais de todo os tamanhos, cachecóis, lenços e múltiplos adereços com as cores nacionais. As nossas TV já contrataram jornalistas, comentadores, programaram transmissões, directos, reportagens. Existe já um movimento cívico que está a lutar para combater uma falha grave de informação. Querem saber quantas vezes o Pauleta vai ao WC durante a noite. Há também adeptos interessados em saber em que sentido é que o Luís Figo, esfrega os dentes com a respectiva escova. Depois do livro do Carrilho, os jornalistas que se cuidem.... Nada ficará como dantes. Exigimos rigor na informação.
Assim, através de um jogo fantástico - o Futebol - um país pára embasbacado não para o jogar, desfrutar dele, tirar partido dos seus benefícios para a sua saúde, bem-estar e qualidade de vida, mas antes para encher as bancadas, gritar e acenar com bandeiras e cachecóis. Fico triste, chocado e até "envergonhado geracionalmente" quando os esforços, a mobilização, os recursos financeiros são para organizar claques de crianças que vão ficar com uma ideia de "desportistas de bancada" vestidos com as cores das equipas que circunstalcialmente estão no relvado. O Futebol desenvolveu-se porque conseguiu ao longo dos séculos, atrair muitos praticantes a um jogo simples. Trata-se de valorizar as práticas do Futebol, por oposição às formas contemplativas do jogo. Porque não colocamos a mesma vontade, o mesmo empenho, os mesmos meios, os mesmo recursos fundamentais para organizar 2/3 jogos entre equipas participantes numa competição, noutras situações? Porque não acontece o mesmo para requalificar os espaços desportivos das escolas do 1º CEB? Porque não nos empenhamos na construção de espaços verdes e espaços desportivos públicos? Porque temos dificuldade em afectar meios a políticas de promoção das práticas?
José Sócrates pode andar descansado. O país andará nos próximos meses adormecido e alienado com o Futebol e as suas ilusões. Mister Scolari com o seu ar de sargento sabichão e mandão (que outro país suportaria tal bronco ignorante à frente de selecções nacionais?) irá fazer "agitação de massas" com truques saloios de tiques de autoritarismo sul-americano, mascarado de grande "sabedor" da coisa.
O Futebol é só um jogo. Por sinal um jogo fantástico que os portugueses adoram. Mas custa ver num país com tantas dificuldades, que a mobilização dos cidadãos seja maior para comemorar um título desportivo, do que para lutar pelos direitos dos cidadãos. É mais fácil mobilizar as pessoas para "ver um jogo" do que para discutir um problema que possa afectar a vida da comunidade. As emoções relacionadas com o jogo não explicam tudo. A actual "ditadura económico-grupal" da comunicação social lusa poderá ajudar a compreender e explicar a situação. Um país com o mais elevado nível de ileteracia, possui 3 diários desportivos. O país da Europa com menor consumo de leitura de jornais, consome 3 diários, que de desportivos têm muito pouco, já que ocupam a atenção com as questões acessórias do jogo.
Neste contexto, o Futebol não tem culpa da utilização social que lhe é dada. Ele é apenas um dos muitos jogos praticado pelo Homem. A cada momento devemos equacionar que "o mais importante não é o que pode fazer o João no Futebol, mas antes como pode o Futebol ajudar o João" ...
Viva o Futebol....

2 comentários:

Norte disse...

Com as devidas vénias e respeito pelo conteúdo do bloguer do JPP (Pacheco Pereira), o Abrupto, transcrevo um comentário que encaixa bem no que o Rui escreveu. Senão vejamos:
"QUEM DESCEU PRIMEIRO AS ESCADAS, O QUE COMERAM AO PEQUENO ALMOÇO, O TORNOZELO QUE ESTÁ VERMELHO, “GOSTAVA DE VIR A PEGAR NELA [A TAÇA]”, “OS RAPAZES VÃO TER UM BOCADO DE PRESSÃO”, “ A ALEMANHA NATURALIZOU FANTASISTAS COMO O NANDO”, “ESTOU NUM GRANDE MOMENTO FÍSICO E PSICOLÓGICO”, “O DESEJO CRESCENTE QUE CADA VEZ MAIS ENVOLVE A NAÇÃO LUSA”, “FAZ FALTA QUARESMA PORQUE FOI MUITO CONSISTENTE”, AS BANCADAS DO LUSITANO ESTÃO SEM LICENÇA. “O DO MEIO TINHA COMO FUNÇÃO FINALIZAR OS CENTROS DA ESQUERDA E DA DIREITA”, MANICHE DEU O “TIRO MAIS SONORO AO POSTE”, OS JOGADORES “MANIFESTARAM SINTONIA”, A CONSTIPAÇÃO INIMIGA DA SELECÇÃO, “COMO TENHO MUITAS SAUDADES DA MINHA MULHER”, “TUDO O QUE FIZER MISTER SCOLARI, ESTÁ BEM”, ETC, ETC.
Ah! minha bela Futebolândia! Segue o exemplo do Montenegro e torna-te independente. Leva a televisão, a rádio e os jornais... Já tens bandeira e hino e a UE dar-te-á seguramente guarida. Deixa o silêncio por cá. Vá, rápido!"

Anónimo disse...

Boa!